"As pessoas não sabem ouvir, não querem. Não o fazem por pura comodidade e conforto de suas ásperas vidas. Quando eu ouvi, meu coração bateu forte, vivo...quando finalmente eu ouvi, meus sentimentos transbordaram do meu corpo...e eu te amei."
Me chamo Arthur, tenho 18 anos. Sou feliz, tenho uma vida feliz...tenho amigos, já tive várias paixões, sou divertido e me divirto com meus amigos...não sabia que a vida era feita de simples detalhes, entretanto, vivia intensamente...ainda vivo...diferente, mas vivo. O tormento da minha vida começou quando, naquele dia chuvoso meus pensamentos me levaram para um caminho distorcido...
Estava chovendo muito, estava indo de carro para a faculdade, nada de diferente, o trânsito leve, os prédios escuros e apenas poucas janelas iluminavam as edificações. Frederico, meu melhor amigo, 20 anos...Não me lembro muito bem, mas consegui ver ele no ponto de ônibus, esperando.
-Ei Fred! Carona?
-Obrigado-diz ele entrando no carro, deixando o ar frio da chuva gelada entrar consigo.
Fred era bem diferente de mim...Quase não falava, quase não ria...muitas garotas o admiravam, por sua beleza, por seu charme...mas ele era irritantemente quieto. E, droga! Era meu melhor amigo. E meu único verdadeiro amigo...
-Arthur, por que você não usa o cinto?
-Já estamos quase chegando, Fred, deixa de ser bobo...o que aconteceria?
O que aconteceria? O destino? O pior?
Sim, o pior. Não me lembro do acidente, só me lembro do despertar. E lembro dos vultos brancos, um grande silêncio...
Via médicos conversando, vi o Fred com sangue na roupa...mas não escutava. Estava com medo, estava cansado...desmaiei de novo.
Li em um cartão o que os médicos haviam dito...era a letra do Fred...
"O carro capotou...você foi lançado do carro pelo lado, a porta abriu e você caiu. Os médicos disseram...que você está em estado de choque...você está com surdez temporária, e não sabemos quanto tempo ela vai passar...estou bem...porque você nunca me ouve?"
Quando terminei de ler o cartão, começei a chorar, e vi Fred dormindo ao lado do meu leito...ele ficou ali a noite toda?
Como eu morava sozinho, os médicos não me deixariam ir pra casa, então Fred me levou para a sua casa...estava bem...apenas surdo...era torturante...ver os lábios do Fred se mechendo e eu não conseguir entendê-los...
Com a ponta do seu dedo indicador, ele soletra uma frase na palma da minha mão: "O que você vai querer para o jantar?"
Meu coração bateu forte...era a primeira vez que o Fred tocava em mim, eu senti meu rosto corar e o Fred escreveu num bilhete:
"Está com febre? Está se sentindo bem?"
Eu apenas fiz um sinal com a cabeça de que estava tudo bem, e, cabisbaixo tentei não olhar para os olhos negros e penetrantes do Fred...acho que estava me apaixonando...
Não quero ficar sozinho, não quero ficar longe de quem amo...não consigo!
Um pesadelo? Acordei assustado, e lá estava o Fred...novamente ele escreve em minha mão: "Estou aqui. Te protegerei. Durma..."
Cansado, e ainda fraco, desmaiei.
Essa noite teria de passar sozinho...no hospital...Fred já tinha ido embora, todos já tinham. Estava lá, deitado em meu leito, à luz do luar, a janela aberta deixava uma leve brisa entrar no quarto. Não conseguia parar de pensar em como minha vida estava confusa, em como o Fred estava sendo tão amigo...mais que amigo...eu queria vê-lo. Quero vê-lo!
Pulei a janela do hospital e saí correndo, procurando por ele, procurando seu abraço, seu corpo. Em uma rua eu o encontro e assustado ele vem ao meu encontro...
-Fred...!
Ele olha para mim e me abraça.
-Fred...
-Eu sei, Arthur...Eu também te amo.
Meus olhos se encheram de lágrimas, finalmente, eu o ouvi...
...finalmente...eu o beijei.
Nenhum comentário:
Postar um comentário