25 de fev. de 2011

Silenciosamente

"As pessoas não sabem ouvir, não querem. Não o fazem por pura comodidade e conforto de suas ásperas vidas. Quando eu ouvi, meu coração bateu forte, vivo...quando finalmente eu ouvi, meus sentimentos transbordaram do meu corpo...e eu te amei."

Me chamo Arthur, tenho 18 anos. Sou feliz, tenho uma vida feliz...tenho amigos, já tive várias paixões, sou divertido e me divirto com meus amigos...não sabia que a vida era feita de simples detalhes, entretanto, vivia intensamente...ainda vivo...diferente, mas vivo. O tormento da minha vida começou quando, naquele dia chuvoso meus pensamentos me levaram para um caminho distorcido...

Estava chovendo muito, estava indo de carro para a faculdade, nada de diferente, o trânsito leve, os prédios escuros e apenas poucas janelas iluminavam as edificações. Frederico, meu melhor amigo, 20 anos...Não me lembro muito bem, mas consegui ver ele no ponto de ônibus, esperando.

-Ei Fred! Carona?
-Obrigado-diz ele entrando no carro, deixando o ar frio da chuva gelada entrar consigo.

Fred era bem diferente de mim...Quase não falava, quase não ria...muitas garotas o admiravam, por sua beleza, por seu charme...mas ele era irritantemente quieto. E, droga! Era meu melhor amigo. E meu único verdadeiro amigo...

-Arthur, por que você não usa o cinto?
-Já estamos quase chegando, Fred, deixa de ser bobo...o que aconteceria?

O que aconteceria? O destino? O pior?

Sim, o pior. Não me lembro do acidente, só me lembro do despertar. E lembro dos vultos brancos, um grande silêncio...
Via médicos conversando, vi o Fred com sangue na roupa...mas não escutava. Estava com medo, estava cansado...desmaiei de novo.

Li em um cartão o que os médicos haviam dito...era a letra do Fred...

"O carro capotou...você foi lançado do carro pelo lado, a porta abriu e você caiu. Os médicos disseram...que você está em estado de choque...você está com surdez temporária, e não sabemos quanto tempo ela vai passar...estou bem...porque você nunca me ouve?"

Quando terminei de ler o cartão, começei a chorar, e vi Fred dormindo ao lado do meu leito...ele ficou ali a noite toda?
Como eu morava sozinho, os médicos não me deixariam ir pra casa, então Fred me levou para a sua casa...estava bem...apenas surdo...era torturante...ver os lábios do Fred se mechendo e eu não conseguir entendê-los...

Com a ponta do seu dedo indicador, ele soletra uma frase na palma da minha mão: "O que você vai querer para o jantar?"
Meu coração bateu forte...era a primeira vez que o Fred tocava em mim, eu senti meu rosto corar e o Fred escreveu num bilhete:

"Está com febre? Está se sentindo bem?"

Eu apenas fiz um sinal com a cabeça de que estava tudo bem, e, cabisbaixo tentei não olhar para os olhos negros e penetrantes do Fred...acho que estava me apaixonando...

Não quero ficar sozinho, não quero ficar longe de quem amo...não consigo!
Um pesadelo? Acordei assustado, e lá estava o Fred...novamente ele escreve em minha mão: "Estou aqui. Te protegerei. Durma..."

Cansado, e ainda fraco, desmaiei.

Essa noite teria de passar sozinho...no hospital...Fred já tinha ido embora, todos já tinham. Estava lá, deitado em meu leito, à luz do luar, a janela aberta deixava uma leve brisa entrar no quarto. Não conseguia parar de pensar em como minha vida estava confusa, em como o Fred estava sendo tão amigo...mais que amigo...eu queria vê-lo. Quero vê-lo!

Pulei a janela do hospital e saí correndo, procurando por ele, procurando seu abraço, seu corpo. Em uma rua eu o encontro e assustado ele vem ao meu encontro...

-Fred...!

Ele olha para mim e me abraça.

-Fred...
-Eu sei, Arthur...Eu também te amo.

Meus olhos se encheram de lágrimas, finalmente, eu o ouvi...

...finalmente...eu o beijei.

20 de fev. de 2011

Porta

Ele corria desesperadamente por um corredor branco com carpete azul marinho, desesperado, assustado e com medo. Todas as portas desse corredor vazio e iluminado o levava à um outro corredor estranhamente vazio e iluminado. Por que todas as portas mesmo abertas lhe pareciam fechadas? Por quê?

Tateando a parede branca texturizada ele nota luzes vindo da porta seguinte. Trancada...então ele resolve bater na porta e ficar ali. Sua cabeça dói, ele desmaia...e cai em frente à porta iluminada.

Seu mundo não desmoronava, mas ele ainda tinha lágrimas pra dar. Chorava, muito, chorava sem motivo...mas acordado? Onde? Não era mais o corredor.


Alguém o trouxera para dentro daquele quarto tão branco quanto o corredor. Ele não conseguia ver o rosto de quem o ajudara...mas simplesmente o abraçou como se aquela pessoa fosse a única que a compreendesse realmente. E ali, no sofá chorou, nos braços daquela pessoa desconhecida.


E a voz dele apenas soou em seus ouvidos e em sua alma que ainda chorava:

-O amor é a resposta para as perguntas que você esqueceu. Mas a resposta é o amor.

2 de fev. de 2011

Sonambulóide

É assim, exatamente assim..."Foi" assim, na verdade. Foi assim que me despedi...caminhei até a beira da ponte, e me joguei ao precipício imaginário. Levado pelos sonhos que me guiavam até as profundezas do rio gelado.

Ja era sufocante, mas havia algo que não me acordaria, a sonambulóide da noite tomando conta do meu corpo que boiava gelado até a margem do rio congelante.

Não demorou muito para o frio congelar meu corpo, mas estranhamente era uma sensação deliciosa, como se aquele congelamento fosse um paraíso que envolvia o meu frágil corpo, que agora aos poucos, afundava como uma rocha para de volta ao centro rio.

Como uma marcha fúnebre, ou um rito tribal o gelo que formava minha redoma se despedaçara, e de dentro para fora do rio a mancha negra da morte fora substituída por uma aura branca, reluzente como uma estrela, um cometa. E desta luz meu corpo se erguera até a beira da ponte.

Um passo para trás. E foi assim que me despedi, da sonambulóide do amanhecer, retornando ao aconchego dos sonhos como uma fita que se rebobina. Ar nos pulmões, a pele quente e olhar vivo, atento e agora aberto.

Finalmente acordei!